FÉ: ÚNICO “MEIO DE GRAÇA” – ÉZIO LUIZ PEREIRA

FÉ: ÚNICO “MEIO DE GRAÇA”

 

 

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”  (Efésios 2:8)

 

Grande equívoco, em relação à exegese bíblica do texto encontrado em Efésios 2:8, que expressa com nitidez, a fé como único meio de graça, se instalou na Igreja Romana, no século XVI e respingou em algumas alas denominacionais eclesiásticas, quando se pluralizou o “meio” (fé) de se chegar à Graça de Deus, deslocando o favor de Deus imerecido pelo esforço humano, construindo a doutrina dos chamados “meios de graça”, expressão, inclusive, que não se encontra nas Sagradas Escrituras, mas cunhada no entorno da Idade Média.

Decerto, a origem da expressão (“meios de graça”) veio do seio da Igreja Católica Romana, a par do advento do movimento da pré-reforma, com foco nos “sacramentos”, consoante bem pesquisado por Champlim[1] e foi transmitida como uma “verdade revelacional”, mas se vê e se nota que não é verdade bíblica, conforme será aqui demonstrado à luz da Bíblia. Trata-se de um fato histórico constatado.

Assim é que, ao contrário do que afirma a Carta de Paulo aos Efésios, para se alcançar a Graça de Deus, o homem deveria se esforçar, “pagando um preço”, com os seus esforços (lembre-se de que Jesus já o fez pelo ser humano). Ocorre, pois, confusão amiúde entre “meio de Graça” e “consequências da Graça” ou “meios de santificação”. São conceitos distintos e aqui o discernimento da diferença é significativo, pois não envolve apenas uma simples questão terminológica ou de rótulos, mas uma questão de essência bíblica, ligada à salvação, levando o crente a um entendimento errôneo do que seja graça, em seu autêntico sentido, reclamando uma corrigenda necessária.

Num primeiro momento de análise, necessário se faz compreender o que seja “meio”, o que seja “graça” e o conectivo “de” que os liga, discernimento sem o qual se cairá no erro reprovado pelo Senhor Jesus: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt. 22:29). Afinal, não se conhece um conceito bíblico sem um mergulho etimológico e exegético nas palavras que o compõem, notadamente no étimo dos vocábulos, em seu emprego no texto e no espírito da mensagem que se pretende revelar numa construção contextual.

Não se pode olvidar de que o estudo é salutar porque um equívoco aceito como dogma inquestionável, durante anos, passa a ser visto como uma “verdade” inquestionável, criando resistência para a devida corrigenda, pois a repetição contínua de um erro acaba se tornando uma suposta “verdade”, haja vista que o aprendizado surge pela repetição. Contudo, proclama Salomão: “A glória de Deus é encobrir as coisas; mas a glória dos reis é esquadrinhá-las” (Pv. 25:2).

Sob esse enfoque, a literatura sapiencial apócrifa fala da graça alcançada por meio de obras e esforços humanos, fazendo surgir, desse raciocínio humano, os chamados “meios” para se alcançar a graça ou a expressão “meios de Graça” (pagamento de penitência, pagamento de promessa, martírio, jejuns, pagamento de ofertas, cantos litúrgicos, leituras sagradas etc.), como se a graça pudesse ser alcançada por “meio” de esforços humanos. Contudo, a expressão: “meios de graça” não é bíblica, nem poderia ser, pois a Bíblia revela apenas um meio de Graça, conforme se vê no texto de Efésios 2:8: a fé, conforme será aqui demonstrado, à luz dos ensinamentos bíblicos. Essa compreensão é salutar para um verdadeiro entendimento bíblico.

Decerto, o problema se instala porque o ser humano não é inclinado a aceitar a sua passividade no processo de salvação; necessita de envidar esforços, contudo o sacrifício de Jesus foi soberano e suficiente (“Tudo está consumado”), razão pela qual o Senhor Jesus ganha centralidade absoluta e suficiente no processo de salvação (“a minha graça te basta”), retirando o mérito humano. Nem se diga que a doutrina dos “meios de graça” emana de “revelação divina”, pois não existe “revelação divina” que transgrida os princípios bíblicos, não existe “revelação divina” antiescriturística, isto é, que não esteja inserida no modelo bíblico. Afinal, o Senhor não é Deus de confusão e de incoerências e a Sua Palavra é suficiente, prescindindo de “doutrinas” humanas não inspiracionais.

Pelágio, monge ascético britânico, radicado em Roma, preocupado com a devassidão moral na qual viviam os seus contemporâneos, notadamente com essa devassidão na igreja romana, de sorte que construiu o pensamento voltado para os dogmas do Antigo Testamento, de cunho judaizantes, aglutinados com o exemplo humano de Cristo, em seu comportamento moral, estabeleceu uma linha religiosa que pregava a autonomia humana que sustentava que o ser humano seria capaz de tomar a iniciativa de sua salvação, com os seus esforços e essa doutrina pelagiana foi combatida por Agostinho que mantinha os olhos na graça divina.

Decerto, doutrinas eclesiásticas criadas à margem do modelo bíblico são formulações humanas duvidosas, desprovidas de inspiração divina, portanto não são, à obviedade, revelações divinas. É nesse sentido que a primeira linha de indagações que se faz é: a doutrina que se pretende pregar está inserida claramente no modelo bíblico ou é apenas fruto de mera “experiência”? Ela está, nitidamente, de acordo com as Sagradas Escrituras? Ela tem base bíblica ou tem base empírica? Ela está inserida claramente no modelo bíblico, de acordo com a igreja no início do cristianismo? Se a resposta for negativa, isto é: se ela não é bíblica, estar-se-á, inexoravelmente, diante de uma heresia e deve ser afastada, sob pena de ferir os ensinamentos bíblicos e cair num subjetivismo reprovável, ainda que nasça de sinceras “”experiências” pessoais. Afinal, experiências não criam doutrinas espirituais.

Balaão, no tempo veterotestamentário teve uma experiência maravilhosa de ouvir a voz do Senhor veiculada por uma jumenta registrada em Números 22: 23-30, nem por isso deve ser criada uma doutrina de ouvir a voz de Deus através de um animal, pois aquele caso foi específico para uma dada situação isolada. Deus pode se manifestar e falar ao ser humano de diversos modos e maneiras, sem que se crie um fundamento específico usando um meio, também específico para ouvir a voz de Deus, a menos que a doutrina conste no tecido bíblico neotestamentário, cujo teor foi confeccionado para doutrina da igreja. Não se pode “obrigar” a Deus a falar no momento em que o ser humana entende que Ele deva Se manifestar, por meio material aleatório, sem respaldo bíblico.

Então – diga-se uma vez mais – a indagação para a devida verificação e conferência é: a doutrina/fundamento “x” tem previsão bíblica neotestamentária de forma nítida? Ou está à margem do Texto Sagrado? Ela é fruto de conjecturas e interpretações à margem do Texto Sagrado, ou está evidente na Bíblia? Ela tem base no modelo bíblico específico? Cristo a ensinou? Há previsão nas cartas neotestamentárias? Tem respaldo no ensino apostólico?

A afirmação segundo a qual o esforço humano conduz à graça (“meios de graça”), parte da indisfarçável premissa da salvação por obras, de sorte que o ser humano para alcançar a Salvação deve realizar algum “esforço” imposto. Entrementes, no plano da salvação, a ênfase está totalmente em Deus; não no ser humano que a recebe pela fé. Pensar o contrário estar-se-ia inserindo no conceito de graça de Deus, à base meritória humana, como um “preço” a ser pago para se obtê-la, subestimando o sacrifício do Calvário. Ora, se ele não foi suficiente, o homem precisa empreender uma “ajuda” (!). Não se podem confundir os conceitos das expressões bíblicas.

“Meio” (significa: mediante; o que vai mediar; intermédio; permeio), na linguagem do dicionarista, é a “via pela qual se alcança um fim ou um objetivo”. Assim é que, a rigor, não se alcança um fim sem passar pelo meio, ou alternativamente, “meios”, como uma pluralidade de caminhos. Deveras, o “meio” é o que está entre dois pontos: o início e o fim. Não se alcança um (fim) sem passar pelo outro (meio). Para que o ser humano possa alcançar a Eterna graça de Deus, deve utilizar – tão só – um meio, instrumentalizando o acesso à graça: a fé. Única e exclusivamente. Contudo, Fé é diferente de graça, pois um instrumentaliza o outro para a Salvação, que é um conceito distinto.

Vai confirmá-lo Paulo escrevendo aos Romanos (Rm. 5:2): “por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes […]” (grifo nosso). O que mais precisa ser dito? Basta crer! Então, para quem pensa diferente, o equívoco está evidente, do ponto de vista bíblico, a menos que se queira aceitar heresias. Ou estaria Paulo equivocado? Decerto, a presente assertiva está em sintonia com o ensinamento de João 20:31: “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome“ (grifo nosso). Estão presentes os elementos fé (“crendo”) e graça/salvação (“tenhais vida em seu nome”).

Nessa dimensão bíblica, Paulo escreve aos Efésios e não deixa dúvida de que o único meio de Graça é a fé – verdadeiro dom de Deus, na dicção de Efésios 2:8 – para quem tem olhos de bem enxergar. Senão vejamos, seguidamente.

[…] nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência […] em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo […] ”. (Ef. 1:5-8;13).

Quando aquele ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus, ao olhar para a frase que estava no madeiro do Senhor (“Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”), ele creu (usou a fé) que ao seu lado estava o Rei e que Aquele Rei possuía um Reino Eterno e – mais ainda – que Aquele Rei tinha (e tem) poderes para levar o malfeitor ao Seu Reino e pediu – sem orações ritualísticas repetitivas – o acesso, em seu último momento de vida, crendo que receberia. Pediu e recebeu a graça por sua fé. Deveras, em razão da exiguidade do tempo de arrependimento naquela cena bíblica, o processo de salvação daquele malfeitor foi simplificado ou, numa linguagem jurídica: foi sumarizado. Contudo, não deixou de ser um processo (não havia “ato e processo”; havia um processo sumarizado, pois não havia fragmentação).

Indagação que se faz: qual o esforço que aquele pobre homem fez para alcançar o “favor imerecido”? Ele apenas usou a fé; nada mais. Pode-se afirmar que ele alcançou a graça? Sim. Ele utilizou os “meios” (ou “recursos”) pregados pela Igreja Romana (e adotados, mais tarde, como dogma, por algumas poucas igrejas protestantes/evangélicas)? Não. A sua “penitência” (crucificação) foi que o salvou? Não, pois o outro ladrão também “pagou” o mesmo “preço”, e intui-se que não alcançou. Então, à obviedade, não são “meios”. Cai-se, pois, por terra a tese herética.

“Meios de graça” tal como tese dogmatizada pela Igreja Romana (e algumas outras poucas igrejas evangélicas), é um caminho de baixo para cima (como a Torre de Babel, construída com esforço humano), em direção a Deus; a graça de Deus, ao contrário, parte da eternidade (de Deus) para baixo, para o homem necessitado desse favor maravilhoso, sem a participação da frágil criatura. Quando a graça é procurada “mediante” (“por meios de”) comportamentos humanos, como um “preço pago” (?), cai-se num nítido desvio da sã Doutrina bíblica, se estabelece uma heresia e se transforma num “dogma religioso” equivocado, dizendo de outra forma, cai-se num desvio doutrinário teológico contrário aos ensinamentos bíblicos, ainda que com boa intenção. Pensar o contrário estar-se-ia criando uma interpretação desvirtuada da Sagrada Escritura, numa interpretação forçada; estar-se-ia quebrando o modelo bíblico para a salvação e aí ocorre um grande perigo que deve ser evitado.

Portanto, constitui heresia, (do ponto de vista bíblico) asseverar que comportamentos de esforços humanos (jejuns, vigílias de oração, martírio físico, cânticos, penitências, leituras de parte da Bíblia, frequência assídua à igreja etc.) são “meios” de alcançar a graça de Deus, naquilo que ficou conhecido, equivocadamente, como “meios de graça” (“meios?”). Tais comportamentos (nobres, por sinal) podem ser conceituados como “consequências da Graça” ou “meios de consagração” ou “meios de santificação”, como um processo de separação da Eclesia (Igreja) com relação ao mundo. São verdadeiras armas que compõem a armadura do servo de Deus, que já alcançou a graça. Segue-se daí, à obviedade, que não são “meios de graça”, nem “recursos da graça”, porque o único meio de Graça é a fé e o único “Recurso da Graça” é Cristo, porque deu um “novo curso” (“recurso”); não comportamentos humanos. São essências distintas, envolvendo conceitos diferentes. É preciso compreender, com profundidade, tais conceitos teológicos.

Graça e Salvação são termos indissociáveis (embora não tenham o mesmo conceito), porque o primeiro leva ao segundo, num vínculo necessário, conforme o texto paulino aqui examinado. Sob esse viés, o Novo Testamento emprega o termo charis cento e cinqüenta e cinco vezes, máxime nas Epístolas de Paulo (aproximadamente cem vezes), especialmente Coríntios, Romanos, Gálatas e Efésios. Curioso, sugestivo e maravilhoso é que, quase sempre, a palavra “graça” vem acompanhada da palavra “fé”, conquanto não tenham o mesmo significado. Disso resulta, sem receio de equívoco, que o único elemento condicionante para se alcançar a graça é a fé, elemento oriundo da eternidade, portanto de Deus, para o ser humano. Logo, o único “meio de graça” – do ponto de vista bíblico – é a fé, consoante aqui amplamente demonstrado. A única Fonte da Graça é Cristo. Não mais.

Na “graça” há espontaneidade do adorador. Não há imposições. Nesse aspecto, houve um grande desvio da essência. A Igreja Medieval utilizava as penitências, martírio, jejuns como “meios de imposição” (camuflados como “meios de graça”), sem os quais não haveria o “perdão”; não haveria participação do ofertante na liturgia e o adorador era excluído da participação da liturgia, se não cumprisse os chamados “meios de graça”, nem poderia ter acesso aos cargos eclesiásticos, portanto ficava “disciplinado” etc. como um “castigo divino” (“divino”?), pelo descumprimento e desobediência aos “dogmas”. Mera religiosidade e usos/costumes, sustentados por “experiências” (?), sem amparo bíblico, por isso não está inserido no modelo neotestamentário. Então, deve ser rejeitada como “doutrina bíblica”.

Criou-se, destarte, a humanização da adoração, com ênfase em “lugares”, mas” […] os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade, […]” (João 4:23) inseridos, portanto, na graça do Deus Trino. Então, quem não participasse, por exemplo, das “missas” ou “cultos” pela madrugada no templo (ênfase no “local sagrado”, tal como aquela mulher samaritana) ou não fizesse a sua “penitência” diária, não poderia participar da liturgia porque não estava cumprindo os dogmas ou chamados “meios de graça”. Grande equívoco da interpretação bíblica, como tantos outros da época e de hoje. Contudo, Cristo retirou a ênfase da expressão “onde” (local), fazendo migrar a ênfase para o “como” (“em espírito e em verdade”). Assim o ser humano é templo do Espírito Santo no interior do qual Deus pretende agir no processo de salvação.

A rigor, não se alcança o fim (graça) sem passar pelo meio (fé), porque o “meio” dá acesso ao “fim” – e aqui é preciso discernimento. Ancorado na Sagrada Escritura, pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que a fé é o instrumento de justificação, conforme se lê em Romanos 4:16: “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa […]”. Não há dúvida alguma; basta examinar o Texto Sagrado sob a ótica do contexto da mensagem, ainda que se pregue o contrário da linha da Sã Doutrina, desvirtuando o Projeto de Salvação, muito bem discernido pelo Apóstolo Paulo. Uma tradição “revelada” e “vivenciada por experiências” de uma organização eclesiástica não pode sobrepor à linha doutrinária bíblica. Não se deve – repita-se – acrescentar “doutrinas” à margem do Texto Sagrado, conforme adverte Apocalipse 22: 18-19. Assim é que, experiências subjetivas não criam doutrinas espirituais, salvo se estiver dentro do paradigma bíblico.

Nesse sentido, afirmar-se-á, fazendo coro de vozes com o Apóstolo Paulo, em Gálatas 1:8: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (anátema = amaldiçoado). Portanto, quando um grupo que se auto-intitula “igreja”, mas não está nos padrões desenhados nos evangelhos, e em conexão com o modelo da igreja primitiva, descrita em Atos dos Apóstolos, bem como em sintonia com as cartas/epístolas neotestamentárias, não será considerado, em hipótese alguma, Igreja de Cristo, pois o modelo bíblico é suficiente, conforme tese de Lutero: “Sola Scriptura” (“Somente a Escritura”). Modelos estranhos ao bíblico, oriundos de “experiências” e “inovações exóticas” não devem ser aceitos como verdadeiras “doutrinas”.

Nos milagres realizados pelo Senhor Jesus, a Sua preocupação era perguntar se o necessitado cria: “podes crer?”; “se creres verás a glória de Deus”; “crês?”; “a tua fé te salvou” etc. Ele não perguntava: “cumpriste os meios?”. A propósito, Paulo dirá, em Atos 15:11: “Mas cremos que seremos salvos pela graça […]”. Paulo, em corroboração, aduz: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”, em Romanos 5:18 e acresce: “E disse-me: A minha graça te basta […]”, em II Coríntios 12:9. Com efeito, a graça não é do ser humano; é de Deus; nem se alcança por esforços (“meios”?). Por conseguinte, deve ser abolido do seio da Igreja de Cristo, o uso da expressão: “meios de graça”. Não se há de transigir com heresias, tais os “dogmas extrabíblicos”.

Em Efésios 4:7, Paulo escreveu para a igreja em Éfeso, quando estava preso em Roma: “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo”. Ora bem, não teria sido “comprada” pelos “meios”, “segundo” os esforços de cada um? Absolutamente! A bênção apostólica encontrada, por exemplo, em regra, nos finais das epístolas, como em Hebreus 13:25: “A graça seja com todos vós. Amém”, demonstra a dádiva, isto é, a oferta divina; não a compra pelo “preço humano”, através dos “meios de graça”. Algumas igrejas evangélicas perceberam o equívoco e aboliram essa doutrina antibíblica; outras (em menor número), ainda não.

É bastante racional e de uma logicidade humana compreensível o desenvolvimento do seguinte raciocínio: 1) o ser humano pecador “paga um preço”, geralmente imposto (indiretamente obrigatório ou induzido) por uma instituição eclesiástica, utilizando “recursos” ou “meios”, como esforços, tais como: jejuns, penitências, leituras bíblicas, oferta de dízimos, madrugadas em vigílias, uso de indumentárias “recomendáveis” etc.; e, 2) de outro lado, Deus, como “recompensa”, brinda o “fiel bonzinho e obediente” com a Sua graça, de forma que, seguindo esse raciocínio natural humano, bem intencionado e bastante racional, aqueles esforços seriam “meios de graça”, porque constituiriam “recursos” desenvolvidos pelo pecador para alcançar a graça. Tal não se dá, entretanto, dessa forma racional. E pensar dessa forma, estar-se-ia admitindo a justificação humana pelos “meios”; quando a justificação parte somente de Deus. Ora bem, se houve o cumprimento, de forma “obediente”, do jejum, logo o ser humano está “justificado” (?) por si mesmo, o que seria absurdo, do ponto de vista bíblico e aqui cabe uma reflexão profunda; não epidérmica.

A propósito, assim diz o Senhor, através do profeta messiânico: “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Is. 55:9). É aí que a verdadeira graça, no sentido bíblico, entra em cena, trazendo o perdão, a misericórdia e o infinito amor de Deus. Aliás, muitos conhecem apenas o Deus de Poder; poucos conhecem o Deus de Poder e de Misericórdia. Decerto, o ser humano, em sua razão religiosa, não poderá compreendê-lo, porquanto é concebível através da fé, que veicula a graça, como dom de Deus; não como dádiva humana. Com o raciocínio humano natural a tendência é apequenar a Graça, mas ela é infinita e procede apenas de Deus.

Do ponto de vista bíblico, “graça” é a manifestação de favor ou bondade sem se relacionar a valor, justiça humana ou mérito da pessoa que a recebe, vale dizer, independentemente do que a pessoa merece. Nesse enfoque, a graça é um dos atributos principais de Deus e Ele não negocia com o ser humano. Ela está intimamente associada à misericórdia, amor, perdão, compaixão e paciência; não a imposições comportamentais religiosas. Não se pode conceber a ideia, segundo a qual, o cristão que utiliza meios de esforço humano (jejuns, vigílias, martírios, penitências, dízimos, uso de indumentária “recomendável” etc.), alcançará a graça, como se fosse uma troca, como se fosse um câmbio, como se fosse uma negociação ou um “tome lá; dá cá” (só darei a graça se você pagar o “preço” e passar pelos “meios”). Absolutamente! Para corroborar esta tese, um dos mais fortes exemplos bíblicos é o caso do ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus.

Pensar o contrário anular-se-ia a essência da graça e a morte do Senhor Jesus não teria sido suficiente o bastante, daí a “necessidade” de “complementação” por parte da criatura, em relação ao Criador. Isso é total heresia e não pode prevalecer. Aliás, constitui heresia a doutrina que foge do modelo bíblico e se baseia em “revelação antiescriturística” construída dentro das organizações eclesiásticas, “mediadoras”, tidas como “infalíveis” (só o Senhor é infalível) e a glória d’Ele não será dada a outrem e esta afirmação tem base bíblica. Esta tese, uma vez mais, caminha em prol da singularidade da Palavra de Deus como única fonte de revelação doutrinária, fora da qual não se pode admitir acréscimo doutrinário. E não se pode calar e se omitir nesse tocante.

Graça – cumpre enfatizar à luz da Palavra – é favor imerecido, embora ela seja desfrutada dentro da Aliança. A graça de Deus foi revelada através do Pacto de Salvação em Cristo no Calvário e a Sua vitória sobre a morte. Ele – Jesus – foi a encarnação da graça, por sua morte e ressurreição maravilhosa, com o martírio e a subsequente vitória sobre a morte, tornando visível a invisibilidade de Deus. Então, a graça de Deus revelada em Jesus Cristo e operada pelo Espírito Santo, é concedida aos seres humanos para a salvação, concretizando a justificação do pecador arrependido, segundo as Sagradas Escrituras, independentemente do que o homem possa oferecer a Deus. Ao homem cabe aceitá-la pela fé, sem necessidade de “pagar um preço” (repita-se: o alto preço já foi pago suficientemente no Calvário).

A propósito, o Salmista exclama: “Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” (Sl. 116:12). Ele reconhece que não pode usar esforços humanos (abstinências, recursos e outros “meios”) para alcançar a graça e ele responde, adiante: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor” (Sl 116:13). Ele fala, profeticamente, exatamente da fé como único meio de graça. Então, o rei Davi afasta a doutrina errônea dos “meios de graça”. Ele adota a fé como único meio de graça. Ou seria necessário “sacrifício” humano? O Texto Sagrado responde por si.

“Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”

(Oséias 6:6)

Não se conquista a graça por “meios” de esforço humano; depende da misericórdia de Deus: […] Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.” (Romanos 9:15). Essa misericórdia deve ser acompanhada da confiança (fé) na oferta divina, conquanto não merecida. Não mais; porém não menos. Um jejum, por exemplo, realizado pelo crente não o levará à graça (portanto, não é um “meio de graça”), como favor sem mérito. Poderá levá-lo a uma consagração ao seu Criador, como uma maneira de buscar ao Senhor Deus, em santificação, porém não está ligado ao alcance da graça. E esse jejum não deverá ocorrer em coletivização mecânica imposta ou induzida; mas como espontaneidade pessoal e voluntária.

Com efeito, a graça depende de Deus, em Sua soberania eterna; não do ofertante, mero mortal que se coloca à mercê do favor divino, em sua fragilidade como criatura finita. Aqui ocorre confusão teológica amiúde. Portanto, a doutrina dos “meios de graça”, à míngua de fundamento bíblico, não se coaduna com o evangelho neotestamentário, máxime porque se distancia do ensino apostólico gizado no compêndio neotestamentário.

A par de, peremptoriamente afirmar, como axioma único, à luz das Sagradas Escrituras, é que existe um meio de Graça: a fé, que vem de Deus para o homem e volta para Deus; é cíclica. Tanto que o Senhor ensinou a pedir fé, de sorte que ela é dada (não comprada ou barganhada); vem de cima; vem da Eternidade. O que se vem a dizer é que atos humanos tais como: jejuns, orações, leitura bíblicas, vigílias, cultos pela madrugada, cânticos etc. para “auxiliar” (?) no alcance da graça, não são – de forma alguma – “meios de graça”; são meios de consagração como armas poderosas, mas não são condições de recebimento da graça. Não são veículos (“meios”) de acesso à graça Eterna, sob o enfoque da Palavra de Deus.

Pensar o contrário – diga-se uma vez mais – estar-se-ia contrariando toda a essência da Nova Aliança (inserida em o Novo Testamento), numa ginástica intelectual de “contorcionista espiritual”. Tanto que o texto ora sob comento, termina por afirmar (e confirmar esta tese): “isso não vem de vós; é dom de Deus”, portanto não é por “meios” ou “recursos” de esforço humano; é um dom de Deus e se é dom de Deus (leia-se: dádiva de Deus), não pode ser objeto de barganha, do tipo: “eu jejuo e o Senhor me concede a graça”, porque cumpri o “meio” (“meio”?). E quem, sob o enfoque bíblico, poderá afirmar o contrário? Pregar a tese dos “meios de graça” pressupõe afirmar, indiretamente, que comportamentos de esforços humanos são “trampolins” para se alcançar a Graça. Isso conduz à heresia, como tantos outros sem respaldo bíblico.

Na mesma esteira do pensamento bíblico, a fé constitui a condicionante única para o batismo nas águas e nesse sentido, ao analisar o cenário paradigmático do batismo na igreja primitiva, após o pentecostes, verificar-se-á, pelo modelo bíblico, orientado em Atos 8: 26-38, envolvendo os personagens: Filipe e o eunuco, notadamente nos versículos 36, 37 e 38, quando o eunuco pergunta qual seria a condicionante para o batismo:

E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou” (grifo nosso).

Indagação que surge: no modelo bíblico, houve outra condição para o batismo nas águas? Aquele eunuco se submeteu a outras condições mecânicas “reveladas” ou houve “consulta” ao sacerdote? Não. Logo – a menos que se queira inovar, sem respaldo bíblico – não há dúvidas quanto a essa assertiva. Infere-se, do cenário bíblico, contendo a diretriz para o batismo nas águas, que não existem as condicionantes e os obstáculos “criados” pelas organizações denominacionais para impedir o batismo nas águas, estabelecendo critérios divorciados dos ensinamentos bíblicos, uma vez que macula o modelo bíblico adotado pela igreja primitiva, e quebranta a doutrina inspiracional alcançada originariamente pelos pais da igreja. A indagação que houve, no texto bíblico, foi: “o que me impede de ser batizado?”. Então, verificar-se-á, do ponto de vista bíblico, se há algum impedimento. Não mais; porém não menos. Repita-se: experiências não possuem o condão de construir doutrinas espirituais.

Com efeito, a fé no Senhor Jesus, como único e suficiente Salvador e o caminhar na Sua presença (“E, indo eles caminhando […]”, bem como a vontade de ser batizado, após o entendimento bíblico autoriza o batismo, e o sacerdote ou o líder religioso que impede ou posterga esse desejo humano de batismo, sob qualquer pretexto não bíblico, possivelmente prestará contas ao Seu Criador, pois ele não agiu com fé nas Escrituras Sagradas e o modelo evangélico perfeito nelas contido. Ou a Bíblia estaria incompleta, carecendo de novas “diretrizes” e “acréscimos” de “experiências organizacionais extrabíblicas”? É intuitiva a resposta para quem tem olhos de bem enxergar. 

 

Destarte, cumpre reiterar que no Projeto de Salvação, o Senhor Jesus ganha centralidade suficientemente absoluta, e exclui a participação do esforço humano, a não ser a fé (que não constitui esforço humano). Di-lo João, no quarto evangelho: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3:16). O Texto fala de graça, de fé e de doação de Deus; nada mais. Poder-se-ia acrescentar algum esforço humano ou alguma outra doutrina à margem do Texto Sagrado? A resposta é intuitiva, para quem pretende seguir a Bíblia em sua essência.

Na sequência temática, é significativo asseverar que salvação não é recompensa, nem salário; é dádiva, conforme Efésios 2:8. Assim é que, fazemos boas obras porque somos salvos; não somos salvos porque fazemos boas obras. Não se confunde o antecedente com o consequente. A verdadeira Obra para a Salvação já foi concluída na cruz, quando Jesus bradou: “Tudo está consumado”. “Tudo”: o quê? O Projeto de Deus para a salvação do ser humano. Nada podemos acrescentar a ele, nem dele podemos subtrair, por mais que queiramos, na boa intenção, oferecer um pequeno “esforço humano”. Nesse sentido, a Justiça de Deus frente ao pecado, caiu toda em Jesus, no Calvário, a fim de que, em relação ao ser humano viesse a misericórdia e o perdão, tal foi o Pacto Salvífico Sacrificial do Senhor Jesus.

Essa ideia bíblica da graça como favor imerecido reforça sobremaneira a infinita misericórdia divina; reforça a soberania de Deus e a dependência humana; reforça a grandiosidade de Seu Ser Absoluto, canalizando toda a glória em Deus, afastando, por completo, o mérito humano. Há um louvor antigo que proclama: “Maravilhosa Graça! Maior que o meu pecar. Como poder contá-la; como hei de começar?”. Ela é alta e sem fim, porque é eterna. Entender que a submissão a um jejum, por exemplo, é “meio de graça”, equivale a entender que a graça é a “recompensa” daquele que se submete ao “meio”, daquele que cumpriu o jejum determinado e “proclamado aos quatro cantos”, o que não é verdade. Aqui o desafio ousado é para a prevalência do Texto Bíblico; nada mais. A insistência aqui é a prevalência da Palavra de Deus sem fermentos organizacionais, pois um pouco de fermento leveda toda a massa.

Nesse sentido, Isaías transmite a voz de Deus: “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura” (Is. 42:8). O referido texto está em harmonia com o texto encontrado no Salmo 115: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Sl. 115:1). Isso confirma o que foi dito alhures quanto ao epicentro do fenômeno salvífico em Cristo Jesus; não na construção humana.

Diz o texto bíblico de Efésios 2:8, com todas as letras, e em bom tom: “Pela graçasois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus, não vem de obras, para que ninguém se glorie” (grifo nosso). Indagação necessária: o vocábulo “meio” está no plural? Não! Logo, temos, numa relação sequencial deduzida do texto de Efésios: Homem → Fé → Graça → Salvação → Deus. Onde Fé é o instrumento (meio, no singular) do instrumento (graça) para a finalidade (Salvação Eterna). “Para que ninguém se glorie”, porque a glória não é do homem (por seus esforços e recursos); é de Deus. Alguns acreditam que vão chegar à graça usando aqueles “meios” acima mencionados. Equívoco! Graça é favor de Deus sem merecimento e sem esforço humano. Essa compreensão é fundamental para o cristão, que porfia por essa graça Maravilhosa.

Nessa linha de estudos, o que nos leva à salvação? A graça de Deus. Como (meio) chegamos à graça (fim) de Deus? Por “meio” da fé. Eis a verdade bíblica. Não há o que acrescentar. Existem meios importantes de consagração a Deus: jejuns, oração, leitura da Bíblia, louvores etc. Lembre-se de que apregoa Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”: um dos principais lemas da Reforma Protestante ocorrida no século XVI. Retirar o caráter meritório do esforço humano do Projeto de Salvação pela graça de Deus foi o que os reformadores insistiam, contra a mentalidade religiosa, antibíblica, tradicionalista e conservadora da época (e de hoje!).

Em sua tese de doutorado em Teologia, Lutero, no início do século XVI, cujo título monográfico era: “Sola fide et sola Scriptura”, em transliteração: “Só a fé e só a Escritura Sagrada”, defendia a fé como o único meio de graça e a Bíblia como única fonte reveladora da voz de Deus – fora da qual não existia revelação – afastando as encíclicas papais e outras criações humanas, “revelações” altamente questionáveis, sem fundamentos bíblicos, portanto sem respaldos escriturísticos. Aquele reformador, com bom discernimento alterou o rumo da Igreja Fiel. Assim, Lutero pregou as suas 95 teses do “lado de fora” da porta, pois “do lado de dentro”, não surtiria efeito. Ele sabia que a divulgação era necessária, em prol da Palavra de Deus. E ninguém pode ser punido ou criticado pelo “livre exame das Escrituras”.

Não adianta dar uma “ajudinha” a Deus para alcançar a graça, utilizando “meios”. Então, Deus age sozinho e o ser humano apenas crê. Salvação é pela graça e é puro processo de Deus. A fé é fruto da atuação do Espírito Santo. Essa ideia foi seguida por Lutero, Calvino e outros reformadores. As boas obras são realizadas como obrigação do cristão, não como “meio”; não como “causa”, não como “recursos”, mas como “consequência” de quem alcançou a salvação. Não se prega a exclusão das obras, mas elas devem estar em seu devido lugar, como consequência de uma causa anterior. Não se alcança a graça e a salvação pela oferta de esmolas aos pobres, pois pensar desse jeito, concluir-se-ia que aqueles que não possuem recursos financeiros, não seriam salvos, o que levaria a um absurdo.

Com efeito, a vontade de Deus, dentro do cristianismo, não é determinada pelos comandos eclesiásticos e as encíclicas “reveladas” (?) dentro das Catedrais de Roma, mas por livre exame das Escrituras Sagradas; não só pelo monopólio de organizações “mediadoras”, mas pelo sacerdócio universal de cada crente. Repita-se: não há esforço humano pessoal porque “isso não vem de vós; é dom de Deus”. Em melhor dizer: é livre favor divino, temperado com a eterna misericórdia divina. A fé não é a causa; é o meio (leia-se: único meio). Pensar o contrário estar-se-ia desvirtuando a essência da Palavra de Deus. Deveras, os maiores inimigos de Cristo foram aqueles que o crucificaram: os religiosos dogmáticos que impunham aos fiéis fardos pesados para demonstrar “santidade”. Contudo, o fardo do Senhor Jesus é leve. Se o fardo está pesado e opressor, causando tristeza, não é d’Ele! É apenas uma imposição humana, mascarada com uma aparente espiritualidade convincente e não carece de ser obedecida. Pode ser quebrada sem “culpas”.

Cabe destacar que pouco antes do movimento reformador, no tempo dos pré-reformadores, a Igreja Romana, ao contrário da fé como único meio de graça (conforme doutrina do Apóstolo Paulo) pluraliza, criando os “meios” de graça ligados aos “sacramentos”, conforme bem delineado e constatado por Champlim[2], estabelecendo os meios de consagração a Deus, verdadeiras armas poderosas no combate cotidiano, como veículos de alcançar a graça de Deus, confundindo, destarte, uma situação por outra, misturando os conceitos numa ótica dissociada da Sagrada Escritura, o que deve ser combatido como doutrina antiescriturística, porque desvirtua a essência da Graça Salvadora. Posteriormente, uma linha protestante, quiçá sem uma reflexão profunda, abraçou essa heresia.

E não se diga que “meios de graça” não esteja se referindo à graça salvadora de Deus, mas a um benefício secundário, porque esse entendimento demonstra desconhecimento do idioma original (grego) com o qual foi escrito o Novo Testamento (no domínio da cultura helenística) e empregado nas epístolas paulinas. Decerto, os chamados “meios de graça” era uma das formas de dominação religiosa e de “catequizar” ou manipular os fiéis, na época da Idade Média, num quadro que atualmente se denominaria, em linguagem jurídica: “assédio moral eclesiástico” (“bullying eclesiástico”), utilizando uma hierarquia eclesiástica para oprimir e deprimir. Todavia, no conhecimento da verdade haverá liberdade e Deus chamou o ser humano para a liberdade, para servi-lO com alegria. Aqui não se prega a “liberalidade teológica” com um pano de fundo em “liberdade para pecar”.

Nesse passo, remonta-se à cronologia da igreja, e nessa linha de tempo há que mencionar um segmento da doutrina protestante, que em dado momento histórico, abraçou os chamados “meios de graça”, conforme se vê na doutrina atual. A propósito, o Pastor Teólogo, do século XIX, Charles Hodje[3], afirma (equivocadamente, diga-se de pronto, segundo esta tese) em obra clássica: “Os meios de graça, segundo as normas de nossa Igreja, são a Palavra de Deus, os Sacramentos e a Oração”. Não se pode comungar de seu pensamento – com o devido respeito – porque desvirtua a fé como único meio de graça. Aqui o escopo é o esclarecimento à luz da Palavra de Deus.

No ensejo, importante mencionar que a afirmação – em simbologia bíblica equivocada – que as cinco pedras que Davi colocou no alforje, para combater o gigante Golias, diziam respeito aos “meios de graça”. Frágil criatividade! Contudo, Davi não se utilizou dos esforços humanos gerados por si. Decerto, ele usou a “Pedra” (num plural de intensidade ministerial); ele utilizou, profeticamente, a fé no Senhor Jesus (que é a Pedra), de forma profética. E se Davi usou apenas uma “Pedra” para o combate, então ele teria ignorado os outros “meios de graça”? Deixou guardados os outros “meios” em seu alforje, porque não eram necessários? A pergunta ecoou sem resposta, em relação à ilustração distorcida. Isso faz cair por terra a “tipologia” criada à margem da mensagem bíblica, em seu contexto. Aliás, há de se ter muito cuidado com os exageros místicos tipológicos extrabíblicos para não desvirtuar, em subjetividade, a essência da mensagem escriturística.

“Isso não vem de vós”. Logo, os comportamentos de esforços humanos ficam excluídos como “meios” (“meios”?) de graça. Fé é dom de Deus (“não vem de vós; é dom de Deus”). Importa salientar que fé não se confunde com “crença popular”. Salvação não é realização humana; é dádiva outorgada por Deus ao ser humano, na operação da Trindade Eterna. Diga-se uma vez mais: é uma operação do Deus Trino. Transcende ao humano; é produto divino que foge da logicidade racional. Nesse aspecto, o homem quer complicar o que Deus simplificou.

Entrementes, como desconstruir uma “verdade dogmática” religiosa construída e sustentada durante séculos? No Evangelho de João (Jo. 2: 19-20), Jesus propôs, de forma metafórica, destruir o santuário que fora edificado em quarenta e seis anos e reconstruir em três dias, os fariseus se escandalizaram. Afinal, como jogar por terra uma “verdade dogmática” edificada por mais de quarenta e seis anos e reconstruí-la, como a Verdade Bíblica, em três dias? Como admitir o equívoco dogmático pregado por gerações?

É preferível, para não se fragilizar e não se “expor” (Paulo se expôs em prol do Evangelho, porque havia compromisso naquilo que ele acreditava e pregava), permanecer no erro, segundo aqueles religiosos. A resposta está na Bíblia: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt. 22:29). Nenhum dogma religioso que contrarie a Bíblia, ou fuja de seu molde perfeito, pode ser recebido como “revelação”, porque Deus não se contradiz; Ele é a Verdade e n’Ele não há sombra de variação. E na Bíblia não há discursos incoerentes e contraditórios, salvo para quem não souber interpretá-la.

Em tom de conclusão, é importante ressaltar que a finalidade para a qual foi confeccionado este singelo estudo bíblico não é a de criticar um posicionamento religioso ou espiritual, não é a de rebelar contra dogmas de organizações eclesiásticas, não é a de combater denominações, não é a de criar polêmicas, não é a de fomentar espírito de rebelião, mas trazer – na permissão do livre exame das Escrituras Sagradas – uma análise séria do Texto Sagrado, à luz de sua essência espiritual, num dos temas mais polêmicos do Cristianismo envolvendo Fé, Obras, Graça e Salvação, para uma (re)leitura de reflexão e meditação, com apoio na substância bíblica; não mais. Deus abençoe o leitor e o conserve fiel até a volta do Senhor Jesus, como a exclamação apregoada pelo Apóstolo Paulo, em I Coríntios 16:22: “Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema: maranata”. Segue referências abaixo.

Por Escritor Ézio Luiz

 

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Israel Belo de. No compasso da Graça: comentários às epístolas aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses e aos Colossenses. Rio de Janeiro: Juerp, 2003.

BÍBLIA, Português. Trad. José Ferreira de Almeida. 77. ed. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1993.

CAIRNS, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. Trad. Israel Belo de Azevedo. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.

CHAMPLIM, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002.

COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento.  2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000.

FOULKES, Francis. Efésios: introdução e comentários. Trad. Márcio Loureiro Redondo. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2006.

GONZALEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo (A Era dos Mártires). Trad. Itamir N. de Souza. São Paulo: Vida Nova, 1995.

GONZALEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo (A Era dos Reformadores). Trad. Itamir N. de Souza. São Paulo: Vida Nova, 1995.

GONZALEZ, Justo L. Visão panorâmica da história da igreja. Trad. Gordon Chown, São Paulo: Vida Nova, 1998.

GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentários. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2006.

HODGE, Charles. Teologia sistemática. Trad. Valter Martins. São Paulo: Hagnos, 2001.

HULBURT, Jesse Lyman. História da igreja cristã. 14. imp. São Paulo: Vida, 2002.

MIRANDA, Valtair (Org.). Reforma: passado ou presente?: o diálogo entre a igreja de hoje e os ideais do movimento reformador. Rio de Janeiro: MK Ed., 2006.

PEREIRA, Ézio Luiz. Trindade Eterna: exame à luz da revelação. Cachoeiro de Itapemirim/ES: Além da Letra, 2006.

WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Trad. Susana E. Klaussen. Santo André/SP: Geográfica Editora, 2006.

YOUNGBLOOD, Ronald F. Dicionário ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004.


[1]    CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado: versículo por versículo: Atos, Romanos. São Paulo: Hagnos, 2002.v. 4, p.559.

[2]    CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado: versículo por versículo: Atos, Romanos. São Paulo: Hagnos, 2002.v. 3.

[3]    HODGE, Charles. Teologia sistemática. Tradução Valter Martins. São Paulo: Hagnos, 2001, p.1367.

COMENTÁRIO DIGA NÃO ÀSEITA:

Esse é um texto que muito auxilia quem quer meditar nas práticas da Igreja (adenominacional) pautadas nas Escrituras, com relação a sua interação com o Soberano, sobretudo afastando a ideia de que Deus pudesse ser um dono de balcão de negócios, apresentando “recompensas” proporcionais aos esforços de cada um, segundo os “meios” (veículos) escolhidos conforme orientação da própria consciência ou da liderança eclesiástica, para se atingir Graça.

Mas, há uma informação interessante sobre o texto, a qual vem de fontes seguras, de dentro da própria maranata, que afirmam que, ao ser divulgado o seu conteúdo pela primeira vez, pelo nosso irmão Ézio no seu site, claro, sempre com o objetivo de combater heresias e apostasias, jamais práticas específicas denominacionais, os líderes da seita citada, sentindo-se incomodados, reuniram-se para tentar promover o combate às argumentações nele registradas. Resumo da ópera: frustraram-se, pois não conseguiram tal intento, sendo que a partir de então, começaram a depreciar a imagem do nosso irmão em seminários no QG da obra. Eu mesmo cheguei a presenciar citações sobre o Ézio, com termos pejorativos, tais como intelectualzinho, culto demais, ou racional, fora da revelação, no sentido de menosprezar os escritos precisos do nosso irmão.

Outro registro a respeito desse assunto, “fé: único meio de graça”, abordado com excelência neste texto, o qual particularmente aprecio demais, é que, junto com o tema “a letra mata, mas o espírito verifica”, conforme é  ministrado na icm, indicando a revelação exclusiva da casta maranática, em detrimento de todos os outros irmãos, de outras denominações, que estariam fora da pretensiosa “revelação de Deus”, formam os principais pilares de combate ao gedeltismo. De um lado, a exegese maliciosa e falaciosa, descartando os registros textuais bíblicos, para a busca do M.A.L (mistério além da letra); e do outro, a política do toma-lá-dá-cá, instituída pelos “meios de graça”, apontando para diversas supostas formas, com aparições sutilmente bíblicas, de se obter Graça, conforme o critério de “merecimento” de cada um; que é um absurdo. Quem for atento, só por estas duas antíteses, deveras combatidas pelos que estão estudando, demonstram a reboque todas as heresias e inverdades que acometem a esmagadora maioria das práticas na seita maranata.

Boa leitura a todos, principalmente os que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer esse belíssimo texto do nosso irmão Ézio.

Graça e Paz de Deus a todos,

Alandati.

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7 Respostas para “FÉ: ÚNICO “MEIO DE GRAÇA” – ÉZIO LUIZ PEREIRA

  1. Graça e Paz,

    Este estudo é maravilhoso, esclarecedor.
    Que Deus continue abençoando o irmão Ézio com estes rabiscos, como ele mesmo se refere, e que muito edificam nossas vidas.
    Há esperança para o Cristianismo. Há esperança para a Fé. Se ainda sirvo ao nosso Deus, é porque acredito na infalibilidade da Fé e das Escrituras Sagradas. A Fé a única certeza que tenho nesta vida.

    Fiquem com Deus.

  2. Pingback: UMA PALAVRA DE “DESESPERANÇA” PARA O SEU CORAÇÃO | Diga não àSeita·

  3. Caro irmão Ézio, gostaria que soubesse que suas mensagens nos ensinam muito e nos fazem ainda mais meditar na Palavra de Deus. Já as conhecia mas tive uma experiência especial no período em que estava de repouso em decorrência de uma gestação gemelar aos 40 anos. Fiz questão de compartilhar com os irmãos porque creio que a igreja está sendo a cada dia aperfeiçoada. Quanto aos meios de graça, já havia me questionado e compartilhado minha dúvida e esta mensagem veio de encontro a minha necessidade. Ontem, porém, quando colocava os bebês pra dormir tive um alcance e gostaria de compartilhar com os irmãos. Cantava louvores e dentre eles cantei o louvor ” Vem para o meio” então me dei conta de que meio não é somente o veículo mas o ambiente em que se vive e podemos afirmar que os louvores, a Palavra, os jejuns, as madrugadas e as orações fazem parte do ambiente da Graça. Já como veículo, somente a fé.
    Como cantam os irmãos do Arautos ” Graça, simples assim. Perdão se recebe, se aceita e fim. Pecado não se explica. Pecado se paga e Cristo pagou por mim.” Que Deus continue abençoando os irmãos.
    Claudine.

    • Gostaria de dar as boas vindas à irmã Claudine, e agradecer pelo compartilhamento de suas experiências.

      Há muita “terra” (conhecimento) ainda para possuir, dentro da infinita Graça de Deus em nosso favor, e, sem sombra de dúvidas, o escritor Ézio em muito colabora com essa função.

      Graça e Paz!

      Alandati.

  4. Claudine,
    Fiquei enriquecido com o seu comentário aos meus rabiscos. Isso nos alegra bastante.
    E as suas crianças estão bem?
    Quanto a vir para o meio, achei interessante a sua reflexão. Fico também duplamente contente por saber que as fileiras dos que estudam e refletem sobre a Palavra de Deus, têm aumentado. Que bom!
    Abraço fraternal.
    Graça e Paz de Deus.
    Ézio Luiz.

  5. Em pleno 2016, lendo esse texto, fico impressionado o quanto fui manejado a acreditar em muita coisa. Li o texto, com base bíblica, “criticando” a igreja Católica, mas pensei, poxa, isso acontecia de onde eu vim… impossível isso rsrs… Compartilhei com alguns amigos antes mesmo de terminar a leitura e disse: fala da católica, mas se aplica muito ao que vivemos.
    Graças a Deus, estou liberto!

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